Entrevista com Eduardo Ribeiro

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Rede Cultural Duque de Caxias: Olá, Edu! Vamos entender sua trajetória: você é nascido e criado em Duque de Caxias/ Baixada Fluminense? Como é sua relação com a cidade?

 

Eduardo Ribeiro: Nasci na Penha, se formos considerar o endereço do hospital (risos), e fui registrado em Duque de Caxias. Mas, dos meus primeiros dias aos 10 anos, cresci nas bases culturais do bairro Parque São José, no antigo distrito de Belford Roxo, que pertencia ao município de Nova Iguaçu. Depois Nova Iguaçu saiu de mim, quando Belford Roxo se emancipou e, quebrando a casca do ovo, saí de Belford Roxo, pedindo exílio cultural em Duque de Caxias, quando surgiam minhas primeiras penugens que sustentaria alguns pequenos voos sobre o meu próprio deserto cultural. Durante essas tentativas de voos, entre tantas coisas e caminhos, conheci pessoas importantes que traziam opções de direções, caminhos e possibilidades mais leves que o ar que até então eu respirava. E isso, essa rede, fincou meu pé na poesia e na cidade de Duque de Caxias onde atuei em 1986 no grupo cultural Utópicus Pacificus. Foi quando criei e publiquei, com amigos muito especiais, o primeiro número da revista, coletânea de poesia Arrulho, e esse foi o primeiro voo.

RCDC: Conte-nos sobre como você se percebeu artista e o início do seu desenvolvimento.


ER: Em 1986, Ano Internacional da Paz, eu iniciei, em Duque de Caxias, um curso de composição tipográfica no Centro de Educação Integrada no período da tarde e, no período da noite, "Desenhista de Propaganda" no Senac, com o professor Lúcio Lima. No curso de desenho, conheci David Macedo que me convidou para participar da fundação do grupo cultural Utópicus Pacificus, quando me apresentou ao Paulo Kmikz. O Lúcio, professor, comentou em sala que seu amigo prof. Francisco Igreja precisava de um tipógrafo para iniciar uma revista de poesia. Eu que fazia o curso de tipografia me ofereci. E esse foi o início de tudo. Além de ler e produzir as páginas dos poetas da revista Oficina, eu tinha contato com outros poetas independentes do Brasil. Isso ao mesmo tempo que iniciávamos, com artistas de Caxias e bairros satélites de outras cidades da Baixada, as reuniões do Utopicus na antiga Praça do Pacificador, hoje Centro Cultural Oscar Niemeyer. A influência da poesia da revista Oficina e a necessidade de um periódico que divulgasse a produção dos artistas do grupo me levaram à produção da Arrulho.
 

RCDC: O que foram os movimentos Utópicus Pacificus e o Barrulho? Como foram estas experiências e, refletindo sobre elas, o que você acha sobre o papel da juventude local na articulação de grupos e coletivos e a relevância deste tipo de movimento.


ER: O Utopicus Pacificus foi um importante grupo cultural que reunia na década de 1980 cerca de 40 pessoas ao lado do chafariz da antiga Praça do Pacificador para discutir propostas de caminhos para a cultura, a arte e as desigualdades da Baixada Fluminense, e produzir atividades que contribuíssem para um mundo melhor. Durante a breve gestão desse grupo, criamos e produzimos a revista Arrulho. O Barrulho Cultural é o evento de lançamento da Arrulho, que com uma periodicidade muito irregular, mas sem que isso fosse um problema, pois não tinha compromisso nem mesmo com o grupo, apenas com os poetas participantes que se juntavam na produção de cada edição e, por isso, sabiam das dificuldades de produção gráfica daquela época e realidade. Esses mesmos artistas, e outros amigos convidados, entre eles artistas plásticos, poetas, músicos, atores e dançarinos, como Carlos Muttalla, David Macedo, Damião Barbosa, Alexandre Crível, Gilton Costa e Paulo Kmikz, entre outros. Depois, com o tempo, outros foram chegando e mantendo acesa a ideia do Barrulho Cultural, como André Oliveira, Mário Fumanga, Euzébio, Euclides Amaral, Marcelo Peregrino, Geraldo Garcez, Heraldo HB, Rodrigo Dutra, entre tantos outros queridos amigos talentosos que participaram da revista ou do evento. Por isso essa força poderosa da juventude urbana é o combustível necessário para movimentar e manter acesa qualquer chama que fortaleça, principalmente, essa grande fogueira cultural das lajes, garagens e porões da Baixada Fluminense.

 

RCDC: Como foi seu amadurecimento no campo das artes e da cultura e a sua trajetória?


ER: Foi como aquele vento que chega forte sacode tudo e vai aos poucos assentando a poeira e organizando as formas de cada montanha ou punhado de terra. O amadurecimento vem com o passar de tantas ventanias, como ocorre com qualquer processo ou período de nossa vida. Do mesmo jeito que ocorre com qualquer vinho, bom ou ruim (risos).
Mas o principal é a troca que ocorre nesse caminho. Você nunca para de amadurecer. Amadurece quando nasce e vai amadurecer pra sempre...  Cada pessoa, curso, livro, história, evento, trabalho ou desejo são agregados nessa grande cola do amadurecimento. Ninguém se completa tão maduro que ainda não tenha tanto a amadurecer. Sempre estaremos de vez.

 

RCDC: Como é empreender culturalmente em Duque de Caxias e na Baixada Fluminense? Fale também sobre sua experiência com a Esteio Editora.
 

ER: A Esteio Editora foi uma maneira que encontrei de unir o útil ao agradável, um sonho de produzir livros e periódicos de artistas da região, que naturalmente foi se transformando em uma oficina de serviços editoriais prestados a outras editoras maiores que exigiam um CNPJ para prestação de serviços de diagramação e editoração eletrônica. O mercado editorial da Baixada era parecido com o de Marte hoje (risos). Com todas as dificuldades, ainda que isso tenha custado muito caro com a elevada, eterna e covarde cobrança de impostos que incidem sobre as atividades das microempresas culturais, essa atividade abriu portas e gerou relacionamentos importantes com autores de Duque de Caxias, do Rio e de outros estados.
 

RCDC: Você está há mais de uma década à frente do portal Baixada Fácil, um importante veículo de comunicação para a região que tem como slogan “Conteúdo positivo da Baixada Fluminense”. Quais os desafios na criação de website e de conteúdos? Como é o processo de extrair conteúdos positivos desta região com tantas potencialidades?


ER: O Baixada Fácil foi lançado no Dia da Baixada Fluminense — 30 de abril — em 2002, no SESC de Nova Iguaçu, com o objetivo de preencher a enorme lacuna, ainda existente, entre a poderosa força produtiva da nossa região e os necessários investimentos em visibilidade dessa produção.
Nossos grandes concorrentes eram especialistas em retratar a Baixada em publicações de notícias cheias de "sangue" e violência. Um verdadeiro oceano vermelho (ao pé da letra). E os pequenos concorrentes copiavam e colavam as mesmas pautas dos grandes. Por isso, buscamos atuar nesse segmento do conteúdo positivo. E, ao publicar essas notícias mais importantes, fortalecemos os processos de criação de uma imagem positiva para a região.
O maior desafio é, como sempre, o custo. Para manter um site de notícias, além da equipe que deve ser composta, minimamente, por um webdesigner e um jornalista, há um mundo de opções tecnológicas que sofrem constantes atualizações e isso põe tudo em risco a todo momento. Por isso há a necessidade de contratação de host (serviços de hospedagem de sites) seguro, eficiente e que tenham um suporte rápido. E uma política de backup externo eficiente. O conteúdo chega por diversos caminhos, como sugestões de assessorias, produtores culturais, leitores, etc.

 

RCDC: Você teve um projeto de website aprovado pela Lei Aldir Blanc através do município de Duque de Caxias. Fale um pouquinho sobre o que está por vir neste trabalho.


ER: O principal objetivo do projeto Viva Caxias (vivacaxias.com) é difundir a produção cultural e artística do município de Duque de Caxias, aproximando o público, morador ou não, dessa produção. Esperamos ter como resultado a ampliação do público das atividades e produtos culturais produzidos no município, contribuindo com o maior acesso à cultura e também com a geração de renda para os produtores e artistas da cidade.
 

RCDC: Conte-nos sobre outros projetos atuais.


ER: No momento, o meu principal projeto é descobrir uma maneira de juntar meia dúzia de amigos, falar uns poemas e poder abraçar um a um.
 

RCDC: O que você pode perceber de transformador que a Lei Aldir Blanc pode trazer para o campo das artes e da cultura?


ER: Nesse momento de pandemia, que impede a produção de atividades culturais presenciais, a Lei Aldir Blanc é muito necessária. Pois minimiza essas dificuldades do setor. E, de certa forma, será nesse momento um incentivo a produções de atividades por meio das mídias digitais on-line.
 

RCDC: Que lições você tira das adaptações que o isolamento social obrigou aos modos de trabalho, principalmente na forma de produzir cultura?


ER: Poderíamos ter amado mais (risos). Devemos reinventar o mundo. Há algum tempo, tudo vêm migrando para a grande rede. Em breve, a vida será dentro dessa rede. Todos os caminhos são pensados antes de existirem, e você nem se dá conta do quanto caminhou. Essa pandemia é uma dura e breve amostra, ainda que demore mais um ano,  de um processo que já se iniciou, está em construção e vai levar mais algum tempo para se consolidar. Projetos de renda básica para a população, e incluo aqui os artistas, serão sempre necessários. Empatia, inclusão e um redesenho de sociedade é necessário para evitar um grande colapso nesse sistema. A produção cultural é um ponto frágil na base dessa pirâmide.

Entrevista publicada em 30/03/2021.

Eduardo Ribeiro faz parte da Rede Cultural Duque de Caxias! Clique aqui para conhecer seu perfil.

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