Entrevista com kleber lisboa

Foto: Kleber Lisboa.

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Rede Cultural Duque de Caxias: Olá, Kleber! Você é nascido no Pará. Viveu no lugar por quanto tempo? Conte-nos sobre suas memórias da região.

Kleber Lisboa: Olá! Sim, saí de Belém do Pará aos dezenove anos. E desenhava desde os dez, quando fui me entender um pouco com desenho. Meu pai era pintor de carro e de letras e eu comecei a desenhar para ele. Desenho chapado que se chama, sem sombra e sem volume. E eu comecei a me interessar por isto. Meu pai também fez teatro e eu fui me apaixonando pela arte. Por parte de mãe, a minha avó é índia. Não sei qual é a tribo... Cheguei a ver minha avó no interior do Pará e ela era uma índia mesmo. Não sei muito sobre este assunto, mas eu quero saber sobre esta história ainda... E cheguei aqui no Rio de Janeiro aos dezenove anos. Trabalhei de cartazista nas Lojas Brasileiras, mas o meu sonho era fazer um curso de desenho, porque eu desenhava e não tinha técnica. E, graças a Deus, depois eu consegui.

RCDC: Como foi sua chegada à cidade de Duque de Caxias? Quais foram as suas primeiras impressões?

KL: Quando eu vim para o Rio de Janeiro, vim direto para Nova Iguaçu. Depois comecei a trabalhar em Ipanema, nas Lojas Brasileiras da Visconde de Pirajá. Eu me apaixonei por aquela feira hippie e algo bateu no meu coração que um dia eu iria trabalhar lá. E hoje trabalho ao vivo lá

na feira. Bairro onde eu tive também o prazer, antes da pandemia, de fazer uma exposição na galeria do Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, que foi um grande produtor musical nos anos 1960-70, lançou os Novos Baianos, deu o nome da Gal Costa, pois o nome dela é Maria e, segundo ele, é nome de cantora de fado. Tive essa honra de expor lá, onde conheci outros artistas que estiveram presentes. Muitos esqueço o nome, mas, por exemplo, Déo Garcez, Toni Garrido, a esposa do Frejat, Gilda Mattoso, a viúva de Vinicius de Moraes. Foi maravilhoso! Mas depois fui conhecer Caxias com as Lojas Brasileiras, perto da C&A, nos anos 1990. Fui fazer um trabalho lá, substituir um cartazista. Fiquei apaixonado por Caxias e pelo Teatro Armando Melo. Falei: Caramba, vou fazer teatro aqui! E foi como comecei a frequentar Caxias. Foi uma cidade que me acolheu, apesar de estar em Nova Iguaçu, mas na arte foi Caxias, quando conheci o Guedes Ferraz e outras pessoas maravilhosas. Eu me envolvi com o teatro muito mesmo, mas eu queria pintar. Também, através do teatro, conheci Flávio Bauraqui, um grande ator e cantor negro, maravilhoso. Conheci nesta época. Tinha chegado há pouco no Rio de Janeiro, pois era do Rio Grande do Sul e comecei uma amizade muito maravilhosa com ele através do teatro. E aí, pronto. Saí de Nova Iguaçu e vim morar em Caxias, onde também trabalhei por dezesseis anos na Academia Freitas, como um dos coordenadores. Foi lá onde comecei meu curso e conheci a mãe do meu filho – que hoje tem quinze anos –, e hoje é grande amiga. Cada vez conhecendo mais pessoas da arte, tive o prazer de expor junto com Paullo Ramos. Uma honra! Foi na Casa França Brasil. Tudo isto é magnífico, impagável.

RCDC: Quando você inaugurou seu curso de desenho? Conte-nos sua experiência.

KL: No final de 2013 comecei a dar aulas. Foi um presente de Deus. Comecei a dar aulas de hiper-realismo com lápis, carvão e grafite. E depois parti para o aerógrafo. Tive a honra de fazer um curso no Rio com o professor Edson, um dos melhores do Brasil em aerografia. Tem gente que vem de Niterói, Copacabana, Penha, Santa Cruz, o que é muito legal. Mas quando eu estava na supervisão da academia, eu também vivia com o salário de lá. Ela fechou há cerca de dois anos com a pandemia, e então vim para cá. Aqui está sendo muito melhor e, apesar da pandemia, começaram a vir alunos, pelo meu trabalho. Apesar de uma concorrente ao lado com o valor da mensalidade menor do que o meu, ainda assim tenho uma boa presença de alunos. Hoje quero fazer um projeto com crianças de comunidade.

RCDC: Explique um pouco mais sobre a técnica da aerografia.

KL: Este coringa é um trabalho com técnica de aerografia. O aerógrafo tem um compressor, coloca pressão no ar da pistola. Eu uso um aerógrafo de duas saídas, sai o ar, depois a tinta, dupla ação. Eu tenho um aerógrafo japonês que é um dos melhores em termo de metal, de precisão, a sua espessura é fina como uma caneta. Eu uso muito a tinta automotiva com a qual posso pintar metal, capacete de moto, paredes, etc. Já fiz muito estes trabalhos com traços minuciosos e finos. Você vê este cabelo, os olhos, é a precisão do aerógrafo. Eu dou um curso para se usar a ferramenta. No trabalho com ele, usa-se muita sombra e volume, melhor do que a tinta ou o lápis. Mesmo usando o lápis, gosto de fazer o acabamento com o aerógrafo, nem uso verniz, jogo uma tinta automotiva bem ralinha que protege o papel eternamente. Isto é fantástico.

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Imagem: Kleber Lisboa.

RCDC: Você realiza ilustrações hiper-realistas e caricaturas de muitas personalidades. Como foi poder entregar seus trabalhos para outros artistas, muitos deles consagrados no país?

KL: Foi um tipo de marketing que eu pensei. Um dos primeiros trabalhos que eu fiz foi a pedido de uma ex-namorada de um dos músicos do grupo de pagode do vocalista Xande de Pilares. Um que me marcou foi o Fred, na época que estava na Seleção Brasileira e tive a honra de entregar uma arte para ele. Teve a paciência de me atender e tirou várias fotos, batemos um longo papo e depois veio outra encomenda dele. Através dele fiz para o goleiro Diego Cavalieri. Na época o Conca estava jogando e fiz para ele e seu filho. Também Diguinho e outros jogadores. Eu tinha tudo no Facebook, infelizmente perdi... Mas foi emocionante. Levei um trabalho meu no Raul Cortez para o Tom Cavalcante que me chamou no camarim. Emocionante! No meio do palco do teatro lotado ele me chamou, falou que eu era artista da cidade e através deste evento ganhei muitos alunos e encomendas. Veio o Milton Cunha, o Neguinho da Beija-Flor... Nossa! Fui almoçar com ele em sua casa. Ele falando de samba, eu falando de pinturas. Foi maravilhoso, coisa de Deus! E outros artistas como Bemvindo Sequeira, Flavio Bauraqui, da Globo, meu amigão, Hélio de La Peña, Nany People no Raul Cortez, Joanna, entre outros. Agora estou fazendo para o governador e sua esposa... É maravilhoso o artista te chamar e divulgar seu trabalho. Também tenho a honra de estar em Ipanema com pintores maravilhosos que admiram minha arte. São poucos lá que fazem o hiper-realismo. Mas o ápice na minha arte foi quando fui chamado para receber a menção honrosa, em 2020, no Teatro Carlos Gomes. No evento dos melhores artistas e atletas negros do ano. Tive esta honra, me chamaram após descobrirem que eu gosto muito de pintar os ícones brasileiros negros. Foi impagável! Obra de Deus! Havia muitas celebridades... e o cara de Caxias lá! Fiquei muito feliz. Então meu marketing é assim e funciona muito bem graças a Deus!

RCDC: Você recentemente foi contemplado pela Lei Aldir Blanc. Fale sobre seus projetos e como foi colocá-los em prática.

KL: Eu fiz o meu projeto que era trabalhar com mais ou menos vinte ou trinta crianças da comunidade e trazer para cá pra fazer um curso de quatro meses. E depois estas crianças – ou adultos – iriam expor seus trabalhos. E, infelizmente, eu não fui aprovado com esse. Acho que não tive pontuação. Me colocaram no de mil e quinhentos. E depois saiu na internet que eu fui contemplado com esse. Depois me tiraram de mil e quinhentos porque fui contemplado com o de quinze mil. Depois fui informado que não fui classificado em nenhum. Enfim, me tiraram dos dois. Queria uma explicação. Entrei com recurso e não fui aprovado. E então você vê umas coisas chatas. Às vezes é erro, não estou dizendo que é desonestidade. Nós somos seres humanos. Enfim, fiquei muito triste. Um amigo que fez o projeto para mim falou para recorrermos à justiça, pois estava errado. Eu falei: vamos deixar isso pra lá. Mas aí eu fiz umas ligações. Eu ia ter uma entrevista com uma jornalista do Rio falando sobre meu trabalho. Eu ia falar do projeto daqui também. Fiquei triste com isso, mas acho que poderia prejudicar outras pessoas, sei lá. Eu fiz uma ligação para uma pessoa. Dia 28 de dezembro fiquei sabendo que já tinha recebido o dinheiro. Não sei o que aconteceu, mas bateu um dinheiro na minha conta, eu queria saber de onde era o dinheiro. Fiquei preocupado e vim saber que fui contemplado. Fui à Secretaria de Cultura, questionei por que não tinham aceitado meu recurso, mas depois foi aceito, o de três mil. Eu fiz o workshop, aquilo que pude fazer, mas valeu pela grana. Agradeci de qualquer forma. Mas eu tenho esse projeto, mas deixe acalmar mais um pouco, porque tem muitas crianças e adultos que desenham na comunidade e não tem a oportunidade e eu quero transformar isso em profissão para estas pessoas, para terem outra fonte de renda, para que aprendam a desenhar, vender e expor seus trabalhos. Eu tenho muita vontade de fazer isso e vai acontecer em nome de Jesus. Mas eu também fui contemplado com o Prêmio Paullo Ramos e foi legal também. Mas foi bom que saiu uma grana para os artistas. Fico muito contente com isso porque em outros governos nunca vi um centavo, mas agora vi uma grana e acho que agora virão coisas boas por aí.

RCDC: O que você percebe que a Lei Aldir Blanc pode trazer de transformador para as artes e a cultura?

KL: 

RCDC: Como você superou, em seu trabalho, as novas condições impostas pelo evento do isolamento social?

KL: 

RCDC: Você teria algo a dizer a quem deseja empreender no campo das artes e da cultura?

KL: Valeria a pena um empresário pegar uns artistas e colocá-los em pontos maravilhosos da região. Eu tenho um sonho de um dia fazer arte ao vivo em shopping e expor onde empresários poderiam ajudar e dividir o lucro das vendas. Para mim e outros artistas isto seria magnífico, valeria a pena. Ter um espaço top onde os artistas colocassem suas obras para vender e sair uma verba boa dos empresários para ajudar, acho que seria muito bom. No Rio, os turistas dão muito valor às artes. Você vê coisas fantásticas e às vezes são pinturas muito simples, em torno de dois, três, quatro mil, dependendo, novecentos e assim vai. Os turistas olham as minhas obras e ficam encantados. Mas em Caxias, a gente pode fazer um preço muito acessível para o povo daqui. Ia ser muito bacana, muito legal. Vale a pena um empresário pegar obras de arte, fazer uma avaliação, colocar em exposição em algum lugar para vender e dividir este lucro para quem fizer este investimento. Seria perfeito.

RCDC: Você começou a desenhar aos dez anos de idade e tem vários alunos da faixa etária infanto-juvenil, além de projetos futuros com este público. O que você poderia dizer às crianças que querem se desenvolver no campo do desenho e pintura e a seus familiares?

KL: Sim, aqui há pessoas de várias idades. O mais novo é um garoto de nove anos e tem uma senhora de sessenta e cinco anos. Para além do desenho, eu gosto de falar muito com os alunos, as crianças principalmente, sobre respeito aos pais. Agradecer, em primeiro lugar a Deus, por eles estarem fazendo desenho e para eles respeitarem o pai e a mãe. É tão fundamental isso. Meu pai não tinha condição de pagar um curso de desenho para mim, eu já desenhava na marra mesmo, mas eu precisava estudar para ser mais técnico e cortar caminhos. Graças a Deus eu tive maravilhosos professores no Rio e em Caxias. Ajuda muito as crianças na coordenação. Ao observar a arte, tem que ter uma observação profunda. Para mim, desenho não é dom, é técnica. E tem que gostar. Não adianta o pai gostar se o filho não gosta de desenhar. Meu filho desenha, mas ele não gosta, o negocio dele é musica. Não vou perturbá-lo com isso, né. Quando os pais me ligam para informações, eu pergunto se o filho quer ou se é por imposição deles. Caso queira, ele faz uma aula experimental e mostro em pouco tempo o que ele é capaz de fazer. A criança fica fascinada e os pais também. Ajuda muito a criar o conhecimento e a interagir com os pais porque o primeiro desenho realista que eu peço para a criança fazer é alguém da família, o pai ou a mãe. Então quando eles fazem este tipo de arte para os pais, é algo maravilhoso que acontece. É uma surpresa que eu peço para fazerem. Então, quando eles recebem este desenho, choram e, nossa, eu fico em êxtase. Para as pessoas mais velhas é a mesma coisa também. E assim vai, não tem idade, na realidade. Algo curioso que acontece é que já tive muitas pessoas aqui com deficiências, mas que o desenho as ajudou muito, ele acalma. Tive uma aluna surda e os desenhos dela são fantásticos. A mãe falou que o único lugar que ela ficava quieta era aqui com a arte. E isto é fantástico também. Eu acho que desenho é uma terapia, acalma a alma, o espirito, você fica concentrado, deixa o celular e as redes sociais – apesar de eu desenhar pelo celular. É um mundo onde você viaja. Você transforma um desenho chapado em 3D, colocando sombras e volumes. Nossa isso é fantástico! Como se o desenho saltasse de dentro do papel. O Milton Cunha falou uma coisa muito interessante, que eu fiz seu olhar profundo quando o desenhei. Eu tive a oportunidade de conhecer o seu irmão, o Marcelo César, um artista famoso no país e meu amigão, que me disse uma coisa fantástica: “Kleber, você é uma artista porque você tem uma identidade”. Eu tenho uma identidade. Se você vir a minha arte no Japão, vai dizer que fui eu que fiz. Eu gosto de pintar e vender. Eu não gosto muito de pintar aquilo que está vendendo no momento. Eu não vou muito por ai... Então, isso para mim é obra de Deus, tudo é Deus nessa maravilha que é a arte.

Entrevista publicada em xx/07/2021, por Clara Crível.

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